sábado, 28 de fevereiro de 2015

Educar para a Liberdade no Século XXI

            “A complexidade crescente do mundo atual, consequência da evolução tecnológica, científica e social, faz com que não compreendamos o como e o porquê de muitas realidades banais do quotidiano.
É certo, que não podemos conhecer tudo sobre tudo ou, mesmo, o suficiente sobre matérias que, sem o suspeitarmos, poderão assumir uma importância vital - como é o caso, por exemplo, das questões do equilíbrio ecológico. E também é verdade, que podemos utilizar um relógio, durante toda a vida, sem nada sabermos a respeito do seu mecanismo. Todavia, não restam dúvidas de que uma das finalidades da Educação é a de permitir-nos gerir melhor esta incompreensão e dotar-nos de utensílios e competências, que nos permitam viver melhor no nosso Mundo.
Assim, o conceito de Educação deve ser entendido, nos dias de hoje, como uma forma de “libertar” as pessoas de preconceitos e modos tradicionais de pensar e de levá-las a questionar o Mundo e as coisas.
Há mesmo quem defenda, que pessoas educadas são as que aprendem a pensar por si próprias, adquirindo uma personalidade devidamente estruturada, não obedecendo cegamente a tudo e a todos. Daí, que a Educação seja um fator de transformação social, de consolidação da Democracia, de Justiça e de Liberdade.
Um cidadão educado não é só o que foi treinado para assumir comportamentos socialmente “corretos”, mas o que é capaz de ser criativo e que se pretende mais consonante com as especificidades de um universo social em mutação cada vez mais rápida. A Educação, tal como está concebida, na maioria dos casos, pretende como fim último “educar para a domesticação” perpetuando o status quo.
Conscientes de que a Educação não é um ato neutro, devemos manter a esperança de que a mudança é possível e apostar na Educação como meio de transformação das sociedades.
Lamentavelmente, no limiar do século XXI, encontramos ainda quem defenda “técnicas” de Educação, que transpõem linearmente para a organização escolar os princípios tayloristas, tal como acontece no texto escrito por Cubberley.
“As nossas escolas são, de certa maneira, fábricas em que as matérias-primas (crianças) têm de ser moldadas e transformadas em produtos para satisfazer as diferentes necessidades da vida. As necessidades de fabrico derivam das necessidades da civilização do século XX e é tarefa da escola construir os seus alunos de acordo com as instruções recebidas. Para tal é necessário: boas ferramentas, maquinaria especializada, avaliação contínua da produção, eliminação dos desperdícios na fabricação e grande variedade dos produtos finais”.
Assim, ao continuarmos a encarar os alunos como matérias-primas e produtos, ao remetê-los ao papel de objetos de educação, estamos a ignorar características próprias da função da Escola perpetuando processos de fabrico geradores de desperdícios, que terão como corolário o insucesso. O que a Escola continua, em muitos casos, a ensinar, hoje, pouco tem a ver com a realidade deste mundo de “guerras em direto”. Os currículos estabelecidos e que pretendem definir o que o aluno deve e precisa saber continuam a preparar gerações para o mercado do emprego e não para o do trabalho.
Urge alterar este tipo de paradigma de Escola. Os cidadãos do Séc. XXI terão necessariamente de ter competências nas áreas da informação e comunicação, no raciocínio e resolução de problemas, no pensamento crítico e sistémico, na identificação, formulação e resolução de problemas, nas competências interpessoais e de colaboração e na interiorização dos valores da democracia e cidadania participada.
São estas competências que terão de ser a prioridade da Escola para os cidadãos do novo milénio. Um cidadão do século XXI será tão mais livre quanto puder e souber utilizar a tecnologia da comunicação e da informação.
Um exemplo gritante pode ser dado com o que se passa na Coreia do Norte ou em Cuba onde o uso de internet ou é completamente vedado ou fortemente limitado, logo, onde a Liberdade é ainda uma “miragem”.”


Maria Paula Branco
Diretora Executiva do Instituto para o Desenvolvimento Social (IDS)



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